Perfil do 1º Papa latino-americano da história da Igreja

papaO pontificado do Papa Francisco foi recebido pelos católicos com entusiasmo; além disso, os cristãos viram nele um grande homem de fé e humildade. O 1º Papa da América Latina, aos longo dos seus dias como Cardeal Bergoglio, na Argentina, mostrou-se crítico em relação aos temas que envolvem o bem da sociedade, como a desigualdade social.

O novo Papa terá muitos desafios pela frente, e para conhecer um pouco mais do perfil do Santo Padre, a equipe do portal Canção Nova entrevistou o professor e pesquisador do Centro Universitário Salesiano de São Paulo (Unisal, Lorena – SP) e Coordenador do Curso de Filosofia da Faculdade Canção Nova (Cachoeira Paulista – SP), Lino Rampazzo. Ele tem experiência na área de teologia – com ênfase em teologia, ética e bioética – e metodologia científica.

Portal cancaonova.com: Qual é o perfil do Papa Francisco?

Prof. Lino Rampazzo: É um Papa pastor e, certamente, tem uma preparação cultural muito profunda, porque, primeiramente, estudou como técnico em Química, depois foi para o seminário Companhia de Jesus para realizar o curso de Teologia e Filosofia. Estudou Psicologia e fez doutorado em Filosofia, na Alemanha, o que permitiu o conhecimento de outras línguas.

No ponto de vista cultural, é um Papa muito preparado. O que mais se destaca nele é a atitude do bom pastor, pois mergulhou nos problemas do próprio povo. Ele percebe as primeiras necessidades humanas, as quais não estão sendo satisfeitas, por isso precisa “gritar”, como fez com alguns governantes para que sejam garantidos os direitos básicos do ser humano.

Portal Cancaonova.com: Quais os desafios que o novo Papa irá enfrentar?

Prof. Lino Rampazzo: Será uma série de desafios. No entanto, parece que a mídia, quando fala de Igreja, identifica o problema “Igreja” simplesmente como uma hierarquia com alguns membros padres, bispos e religiosos. Mas eu acredito que podemos dizer, com grande tranquilidade, que Igreja é a comunidade dos batizados; portanto, falar de “sujeira” na Igreja não é simplesmente apontar o mau exemplo de um ou de outro padre ou bispo, mas sim o mau exemplo dos batizados. Todos nós batizados pertencemos à Igreja e, quando pecamos, trazemos essa “sujeira” para dentro dela. Agora, tudo o que foi amplamente noticiado, certamente mostra que há uma série de problemas que precisam ser resolvidos.

O papa também falou claramente que o diálogo inter-religioso, começado no Concílio Vaticano II, tem de continuar e ser aprofundado, por isso convidou o rabino chefe de Roma para participar da Missa de abertura do seu pontificado. Isso mostra o interesse do Papa Francisco com o diálogo entre as diferentes religiões.

Além do diálogo entre as religiões, um outro grande desafio é o interesse que ele mostrou pelas populações menos favorecidas. Nós temos de viver na fraternidade, pois o mundo está precisando de fraternidade e justiça. A Igreja está precisando voltar-se para o Evangelho.

Portal cancaonova.com: Quais os reflexos do papado de Bento XVI na continuidade dos trabalhos pastorais da Igreja de todo o mundo?

Prof. Lino Rampazzo: Gostaria de voltar à noite em que o Papa Francisco desejou ‘boa noite’ aos que estavam presentes [na Praça de São Pedro] e, depois de pouquíssimas palavras, pediu para todos rezarem pelo Bispo emérito de Roma Bento XVI.

Nós sabemos também que, na Argentina, ele se pronunciou quando foi aprovado o casamento entre homossexuais e, irritando a atual Presidente [Cristina Kirchner], disse que o ideal da família não é este. Isto, segundo ele, não significa desrespeitar os homossexuais, mas não podemos dizer que é família. Que o Estado reconheça isso como união civil é problema dele, mas que a sociedade coloque, no mesmo nível, essas uniões, equiparando-as com as outras famílias não é aceitável do ponto de vista humano nem católico. Nós temos pessoas sem nenhuma religião, mas que também fazem questão de valorizar essa grande riqueza, que é a família, um bem para o ser humano e para a sociedade.

Penso que, certamente, o Papa Francisco dará continuidade [ao trabalho do Papa emérito], mas haverá também descontinuidades, já que cada um é um. Qualquer pessoa, em qualquer cargo que se encontre – inclusive o Papa – vem com o seu passado. Por exemplo: nós temos um Papa professor e está claro que ele veio com a riqueza de ensinar o serviço da verdade e da caridade.

Já dizia o apóstolo Paulo: “Nem todos podem ser apóstolos, nem todos podem ser evangelistas, nem todos podem ser profetas, nem todos podem fazer milagres ou orar em línguas”, mas todos têm de viver a caridade”. Esta é a mensagem que encontramos no capítulo 12, particularmente no capítulo 13 da 1ª Carta aos Coríntios do apóstolo Paulo.

Penso que, com este espírito, vamos acolher o testemunho de Bento XVI, o qual deixou o cargo para o bem da Igreja, e o novo testemunho que o Papa Francisco, de uma certa maneira, surpreendentemente está nos dando.

Portal Cancaonova.com: A América Latina é formada por muitos católicos. O senhor acredita que o novo Papa tem, como uma de suas missões, reafirmar e renovar a fé deste povo?

Prof. Lino Rampazzo: Para mim a escolha de Papa Francisco é providencial sobre muitos pontos de vista, a começar pela escolha do nome de dois grandes santos: Francisco de Assis e Francisco Xavier.

Outro aspecto muito importante que não podemos nos esquecer é que mais da metade dos católicos do mundo estão falando o espanhol, e nós temos um Papa de língua espanhola, ou seja, temos toda a América Latina falando essa língua, com exceção do Brasil e do Haiti. Se chegarmos nos Estados Unidos, veremos que 40% da sua população fala espanhol. Inclusive, o presidente Barack Obama foi reeleito graças aos votos dos hispano-americanos. O país mais católico da Ásia – as Filipinas – é de língua espanhola; portanto, não vamos nos esquecer disso.

Está claro que a eleição do Papa Francisco vai dar novo ânimo à Igreja.

Portal cancaonova.com: O que os católicos podem esperar deste Papa?

Prof. Lino Rampazzo: Este Pontífice falou muito sobre fraternidade, mas para sermos fraternos temos, primeiro, de reconhecer que pertencemos a uma família, ou seja, uma família na qual temos um lugar especial para a mãe de Jesus, Nossa Senhora. O Papa fez questão de visitar a mais importante Igreja de Roma dedicada a Nossa Senhora, Santa Maria Maior. Este espírito de fraternidade, voltando-se a Deus Pai e a Maria, a qual concebeu o Salvador, nos ensina que somos todos irmãos. Essa sensibilidade nasce do fundo da nossa fé.

Se acreditamos num Deus criador de todos e de toda a criação, porque não recuperar esta fraternidade também com homens de outras religiões que, no fundo, tem a mesma matriz do único Criador?

Fonte: Canção Nova

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